quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Crentes

Quando ouço falar em crentes, minha memória, vividamente, remete à uma única ideia: mortos-vivos.
São, até onde lembro, criaturas que atacam sem piedade àqueles que possuem frescor que eles não têm.
São serzinhos doentes cuja "vida" é mantida por meio do esforço, suor e sangue de pessoas de boa fé.
São bichos irracionais que mantêm-se de pé, se alimentam, se fortalecem, sugando, devorando, dilacerando ingênuos que acreditando em uma causa maior, rendem-se às falácias virais.
São podres que infectam ao menor arranhão!
...
Há muitos males em nosso tempo e um deles é essa peste danosa que devasta mais do que fora devastado o Egito no período das pragas.

(Liliana Almeida)



#ELENÂO

Nestes tempos de intolerância e pouco senso, faz-se complicado esboçar qualquer palavra, pois a uma única letra "parimos" uma resenha não desejada.
Para o caos ser instaurado, basta um pequeno descontrole e nos colocarmos contra uma grande massa, alimentada pela cólera, é abrir fogo contra a nossa liberdade de manifestação / expressão, quiçá contra nossa moral e saúde mental.
Ainda assim, sempre andei na minoria e afugentei o senso comum, por assim ser, é que sem temor de perder o que não tenho, estou conscientemente com o #elenunca 👈
✌#

(Liliana Almeida)

terça-feira, 26 de julho de 2016

Um Não Eu.

Eu não tenho fé em mim, não tenho fé nos outros, não tenho fé em Deus.
Eu não tenho fé.

Fui tão destroçada de dentro para fora e de fora para dentro que nem sei onde procurar os pedaços de mim. Se eu encontrar alguns, nem reconhecerei!

Com tantos pedaços triturados, tornei-me sem facção, clã, religião. Não atraente à Deus ou ao diabo, não pertencente ao céu ou inferno. Nem caminhante no limbo sou, pois não pertenço à margem. Se na margem houvesse uma orla, ainda assim não faria parte. Não sou símbolo de opostos e se nos opostos houvessem avessos, ainda assim não o seria.

Se não sou, não pertenço, não tenho: não vou.
Eu só sinto. Dor. Em partes que já me foram arrancadas, sinto dor.
Lastimo, penso e sei que nem existo.
No mundo, vegeto.

Inerte, vislumbro um eu que não posso ser.


(Liliana Almeida)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cena 9001 e contando...

Uma das sessões extraordinárias do espetáculo ocorrido no último dia 17/04, o que muito se tem falado é sobre o comportamento do deputado Jean Wyllys. E por incrível que pareça, a maioria das pessoas que se manifestaram nas redes sociais, não só exaltaram o deputado Jean, como defenderam o seu comportamento frente ao Bolsonaro.

Se ele, de fato, foi vituperado, torturado moralmente como diz, eu entendo sua cólera, sua inquietude emocional e conceituo que ninguém merece sofrer tal escárnio. Entretanto – veja bem – entretanto, achei ridículo e discordo terminantemente do meio que ele encontrou para reagir ao insulto, pois por tudo que ele é, pela formação que possui, pelo cargo que ocupa, espera-se um comportamento diferente. Agindo assim, ele conseguiu superar a baixeza do “canalha” que o injuriou.

O que me deixa com “urticárias”, verdade seja dita, é o fato das opiniões / manifestações tomarem proporções que afugentam o bom senso, a educação, as boas maneiras e, principalmente, incitam e/ou apoiam a agressão, seja física ou verbal. E o curioso é que a maioria das pessoas que expressaram opiniões, são apologistas da paz, do preconceito racial, da indisposição que muitos ainda nutrem contra os homossexuais, etc. O que é que estamos defendendo mesmo?




Outrossim, é válido lembrar que meu texto não inocenta o Bolsonaro em absolutamente nada. Ele nem no inferno é uma vítima, bem como o Jean (medido por esta postura) também não o é. Naquele espetáculo em que a Literatura renascentista intitularia de tragicomédia, a real vítima não se fazia presente. O Povo!



(Liliana Almeida)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Basta!


Não basta ser cordial, tem que ser requintado.
Não basta ser amigo, tem que ser devoto.
Não basta ter fé, tem que ser fanático.

Não basta ser suplente, tem que ser ‘estepe’.
Não basta sorrir, tem que ser palhaço.
Não basta ser inteligente, tem que ser erudito.

Não basta ser simpático, tem que ser cativante.
Não basta ser bom, tem que ser magnífico.
Não basta ser muito, tem que ser tudo.

Não!  Basta!

(Liliana Almeida)



Decepção

Minha gratidão vai a você:

Você que nunca foi fonte de inspiração aos meus poemas!
Você que ao cruzar meu caminho e me saudar com “bom dia”, não se fez notório.
Você que jamais chamou minha atenção com o seu olhar, seu sorriso, seu andar.
Você que nunca gozou de minha consideração e que nunca soube como de mim se aproximar.
Você que mesmo presente parecia ausente por tua expressão não impressionar.
Você que de tão ordinário, não possuía palavras a me encantar.
Portanto, obrigada! São pessoas como você que nunca irão decepcionar!




A decepção existe quando depositamos confiança, admiração, afeto.
Quando deixa de existir a fidelidade, cumplicidade, respeito.
E não há ninguém mais versado em nos desapontar do que aqueles que mais próximos de nós estão. Do que aqueles que mais nos conhecem, que sabem de nossos pormenores, de nossas fraquezas, de nossos assombros.

É assim que é.
Se não quisermos ser decepcionados, vivamos ao ermo.


(Liliana Almeida)

quarta-feira, 26 de março de 2014

O despertar de um cadáver

         Essa é a história de um cadáver. Tentarei desenrolá-la sem complicações, afinal, nem todo cadáver tem uma história, logo, quando um se sobressai no vale de ossos secos torna-se notório e alguém precisa registrar. Acompanhei tudo à espreita e tentei depurar alguns fatos que, à distância, pareciam emaranhados demais a muito entulho.

      Havia um cadáver que vagava lentamente entre indivíduos que, por falta de humanidade, assemelhavam-se a seres sem vida também. Ele caminhava sem recordação, sem memórias, sem identidade e, apesar de não ter um coração a pulsar, parecia inquieto, insatisfeito, mas resignava-se à sua condição. 

        Certa feita, em meio à sua falta de vida rotineira, ele depara-se com algo que viria mudar sua inexistência. Quando trilhava seus lentos passos em direção ao nada de costume, ele se enxergou através dos olhos de alguém que, parado, lhe olhava. Grande foi o choque e logo uma brusca perturbação tomou conta de si. Confuso, mas intensamente movido por sua inquietação, tratou de buscar conhecer o ser que lhe observara. Sua história começa a mudar aqui.

        É comum aos vivos invadir o terreno das emoções de alguém e transformá-lo conforme sua vontade e desejos sem, geralmente, importar-se com o que acontecerá à emoção sorrateada. Muitas vezes, o ser invadido não é nem notado, pois o que vem a ser prioridade é a necessidade do invasor que tem por sinônimo de identidade mau agouro. Por conseguinte, tal ação egoísta traz como resultado a desgraça de um caminhante inocente. Mas, como um cadáver tomaria ciência dessa realidade?

        E assim é que o amigo cadáver, conduzido por uma tamanha agitação foi ter com o ser que embaraçou seu ambiente sepulcral. Encantou-se com a novidade! Permitiu a si um processo que lhe traria uma metamorfose. Com estímulos e persistência o ser desconhecido, aquele que lhe cravara os olhos no seu olhar perdido, foi removendo as sujeiras e trazendo-lhe a vida. Com ela, a sensação, o entusiasmo, o desejo foram tomando conta de suas entranhas e, subitamente, sentiu que as correntes que prendiam o coração foram quebradas uma a uma; sentiu, no conjunto dos ossos, o coração pulsar e, de repente, sentiu amor. Sentiu a dor!

     Foi assim que aconteceu o despertar de um cadáver! Passou a ter ternura, dedicação e logo aprendeu a amar. Comprometeu-se com o amor e entregou-se ao ser amado. Cada batida do seu coração era como uma nota suave que harmonizava uma canção à amada; sua nova vida passou a ser expressão de amor àquela que lhe descobriu a raiz das emoções.

          Entretanto, é do humano a emoção efêmera; a insensibilidade que não permite materializar os bons sentimentos; a rigidez do coração que não sabe doar vez ao amor e, por ser assim, a amada partiu. Não disse adeus, não se despediu, não se fez entendida, não deixou nada a entender. Sumiu.

          Mergulhado nessa verdade atroz, o amigo que acabara de ser despertado sente-se arrebentado como as correntes que lhe prendia o coração. Sente amargar em seu âmago a ausência do ser amado e com o coração mais solitário que a lua no mar sombrio, lamenta ter sido despertado. Contemplativo percebeu que era melhor ser frio, não ter emoção, ser vazio. Concluiu que era melhor ser cadáver, mas compreendeu que era humano e a proximidade era incrível.





(Liliana Almeida)